Espírito Crítico - Blog da KINGPIN BOOKS

terça-feira, julho 18, 2006

5 Dias, 5 Críticas: Quem Edita os Editores?

As grandes editoras são sítios curiosos: parte significativa dos títulos têm editor assistente, editor associado, editor e, finalmente, o editor-chefe. Olhando para muita coisa a que assisto nos comics que leio ou me limito a folhear, apetece-me perguntar: estes editores andam a olhar para onde? Andam a editar o quê? Ou será que não passam de macacos menos evoluídos que o Gervásio?

Um editor não pode ser apenas um escritor frustrado sem talento ou um tarefeiro que começou como office-boy, mas que foi subindo porque demonstrava "boa vontade". Um editor tem que ter sólidos conhecimentos de escrita e de arte, mesmo que seja incapaz de imaginar uma ideia suficientemente meritória para ser publicada ou não consiga sequer desenhar uma stick-figure em condições (mais do que nos olhos, a capacidade de desenhar bem está na prática e correspondente coordenação entre a mão e o cérebro).

Há uns anos atrás, recordo-me de Jim Shooter - o carismático e polémico editor-chefe da Marvel nos anos 80 - comentar com estupefacção uma afirmação inenarrável de alguém que ocuparia o seu posto anos mais tarde: Bob Harras. Instado a especificar aquilo que, na sua óptica, constituía os fundamentos de uma boa escrita ou de uma boa arte, Harras afirmou que essas coisas não se conseguiam explicar ao certo, mas que, quando olhava para elas, percebia! Isto parecem as afirmações de um leigo, nunca daquele que era, à época em que as proferiu, editor-chefe da principal editora americana de comics! Concordo a 100% com Shooter, quando este comentou "Ou Harras estava num mau dia, ou então não fazia mesmo a ideia do que andava a fazer...". E estou absolutamente inclinado para a segunda hipótese.
Porque o que sucedia com Harras, sucede com inúmeros e variadíssimos editores de inúmeras e variadíssimas editoras, das maiores às mais insignificantes: a completa incapacidade para perceber quando certa escrita ou, sobretudo, certa arte, são completamente impróprias para uma publicação profissional! Só isso justifica os amadorismos a que se assiste, quer em termos de escolhas ou completa inadequação destas, quer em termos de directivas de conteúdos.

A última enormidade, uma verdadeira alarvidade mesmo, partiu de um editor experiente, pelo qual nutria respeito profissional e que tinha em bem melhor conta: Tom Brevoort afirmou que, no actual contexto do mercado, as capas são irrelevantes! Isto é um autêntico atirar da toalha, uma capitulação definitiva a uma lógica consumista de massas, assente unicamente em mega eventos e infindáveis crossovers, bastas vezes associados a uma boçalidade estética deprimente.

Eu sei que a velha máxima dita que "Gostos não se discutem!"."Só os maus", acrescentaria eu. Pelo que só isso explica os elogios desproporcionados e disparatados com que Jennifer Grunewald - editora do departamento de trade paperbacks da Marvel - brindou a capa do "artificial" Mike Mayhew para a edição de Women of Marvel, uma edição compilada que, muito honestamente, não interessa nem ao menino Jesus... A capa é o habitual em Mike Mayhew: rígida, artificial, sem vida, estática. Quase uma colagem de figuras sem grande interligação entre si. E já que falo em colagens...

O caso mais gritante é Greg Land. Não vou estar com meias palavras: Land é mau. Muito mau! A capa agora mostrada de Ultimate Power #1 é completamente surreal... Uma mera colagem quase aleatória de figuras isoladas, sem qualquer nexo, sem qualquer ligação entre si. Há uma coisa que se chama composição e que artistas destes parecem ignorar por completo. Artistas destes e, claro, os seus editores. Porque o problema, e grave, está aí: é que os editores acham que esta "coisa" é boa arte e quantas vezes já não ouvi pessoas com responsabilidade na Marvel a apelidarem Greg Land de "um dos melhores artistas da indústria"! Deus me livre!

Reparem na figura da Scarlet Witch: vejam bem a completa desproporção entre a cabeça e o peito e a parte inferior do corpo. Vejam aquele bracinho! A Wanda agora é deficiente, por acaso? E ninguém vê isto? Nem o artista, nem os editores? E querem uma prova que isto é uma (má) colagem de várias imagens? Reparem bem no ligeiro contorno branco à volta de cada figura. Isso significa que cada figura terá sido cortada de outro local e colocada aqui.

Isto parece-me suficiente. Espero que estes exemplos dêem que pensar e que vos faça meditar um pouco. Boa arte não é apenas figuras bonitas. Não é apenas traço bonito. Longe disso. Muito longe, mesmo.

17 Comentários:

  • Uma das minhas maiores interrogações sempre foi essa sobre os editores.

    Mais concretamente "mas quem é que decidiu que estes gajos percebem alguma coisa disto?"

    E a "arte" do Land continua inenarrável

    By Anonymous Bruno, at quarta-feira, julho 19, 2006  

  • E para quê tantos editores referenciados num comic??? Será que ninguém lhes diz nada pelo mau trabalho? A minha teoria é que são muitos editores para confundir e nunca encontrarmos os responsáveis pelo mau trabalho editorial. Será que qualquer um pode chegar a uma grande editora e dizer: "gostava de ser editor, desde que tenha mais cinco a trabalhar comigo em cada comic".

    By Blogger Jorge Amorim, at quarta-feira, julho 19, 2006  

  • Sem discordar de uma vírgula que seja, uma sugestão. As imagens dos posts podiam vir numa versão mais ampliada quando seleccionadas. Eu gostava de ver melhor a primeira deste post em particular e ela fica exactamente do mesmo tamanho... Ou será que é do meu browser?

    By Anonymous Luz, at quarta-feira, julho 19, 2006  

  • Isso já sucede, Luz. Excepto nesse caso em que pretendias, dado que não consegui arranjar uma imagem maior. Mas com a outra, funciona. Óptimo para ver melhor o bracinho prodígio da Wanda...

    By Blogger Mário Freitas, at quarta-feira, julho 19, 2006  

  • Em relação ao que o Bruno e o Jorge disseram, creio que o principal problema vem de cima: falta de liderança derivada da falta de uma visão coerente.

    Com todos os defeitos que tinham, Jim Shooter, nos anos 80, e Bill Jemas, no início deste século, tinham uma visão para a editora que dirigiam, neste caso a Marvel, não receando o risco editorial. E isso reflectiu-se claramente na verve criativa de vários autores e na qualidade superior de muitas séries publicadas então (FF de Byrne, Thor de Simsonson e DD de Miller, no tempo de Shooter; New X-Men de Morrison, X-Force de Milligan & Allred e o início do DD de Bendis, na era de Bill Jemas).

    By Blogger Mário Freitas, at quarta-feira, julho 19, 2006  

  • E ninguém comenta o título do post? É um grande título! =)

    By Blogger Raistlin, at quarta-feira, julho 19, 2006  

  • Mazó Mário, não é agora que a Marvel está a registar lucros como não registava há oito anos? E, resistindo a fazer a comparação simplista com os anos 90, este parece um momento em que o ênfase está quase todo nos escritores, sendo os títulos deixados aos "tarefeiros". Há poucos artistas de lista A nos principais comics da Marvel, arriscaria.

    By Anonymous huhjoão, at quarta-feira, julho 19, 2006  

  • João,

    Só porque está melhor que há oito anos, não é legítimo desejar-se que esteja melhor do que está? Se há oito anos a qualidade estava perto do zero e agora anda pelo 5, não devemos exigir que se aproxime do 10?

    A questão é que voltámos a uma época em que os comics de linha das principais editoras estão voltados para dentro, pretendendo agradar e pregando apenas aos convertidos, com os tais mega eventos e crossovers infindáveis.

    Mas nem foi bem isso que pretendi focar na crítica. Foi sobretudo a questão da quase completa inexistência de editores com competência real e a consequente falta de controlo de qualidade ao nivel mais básico.

    By Blogger Mário Freitas, at quarta-feira, julho 19, 2006  

  • Que tal isto, Luz?
    http://images.comicbookresources.com/solicits/marvelcomics/200608/WOMMAR_cov.jpg

    By Anonymous Bruno, at quarta-feira, julho 19, 2006  

  • Há uma coisa que não percebo no que respeita a criticar os editores. Há uns tempos eram criticados por "cortar as pernas" aos autores, obrigando-os a respeitar pormenores enfadonhos como a questão da continuidade. Há vários exemplos na net onde podemos ver nomes sonantes da industria - na sua maioria britanicos - dizendo que a liberdade criativa e' o caminho a seguir.

    E está a ser seguida, disso não há duvida. Basta ver as inconsistencias que mensalmente ocorrem nos titulos das várias editoras, quer em termos de arte quer em termos de argumento.

    Quanto ao Greg Land, nao tenho nada a dizer. Contra factos nao ha argumentos. O braço da Wanda está diminuto, sim senhor. Mas não se pode julgar toda a obra de um artista por um braço apenas. Quantos e quantos membros este senhor não desenhou já na perfeição? E quem diz que não existe arte no trabalho de colagem?

    By Blogger Passaporte, at quarta-feira, julho 19, 2006  

  • Claro que pode haver arte nas colagens! O que é a arte de Dave McKean senão um trabalho de colagem? Só que no caso de Land, isso é feito em regra de forma tosca e pouco ou nada artística.

    São inúmeros os casos reportados, e devidamente comprovados, de imagens ilustradas por Greg Land, que não passam de fotografias de famosos trabalhadas em Photoshop e inseridas nos comics. Recordo-me por exemplo de um Magneto, em Ultimate FF, que era feito a partir de uma foto de Brad Pitt no filme Tróia. Já para não falar da famosa colagem de carros de corrida colocados por Land a voar, carros esses que deveriam ser simples veículos citadinos das ruas de Nova Iorque.

    Para terminar, recordo apenas que a Marvel já ia arranjando sarilhos graves à custa de situações destas, quando o igualmente "genial" Mike Mayhew decidiu usar a foto oficial do Rei de Espanha para representar o Magneto da House of M. Só mudou a cara; tudo o resto, absolutamente tudo, era igual: a farda real, os galões, os brazões e até a tapeçaria real em fundo...

    By Blogger Mário Freitas, at quarta-feira, julho 19, 2006  

  • Mário, é precisamente a essa volta na indústria que me estou a referir. A verdade é que, mesmo que não fosse uma era de "fanboys", o gosto das massas não é assim tão exigente. A falta de controlo de qualidade dos editores surge com a constatação de que um artista "hot" facilmente supera outro qualquer surgido de um meio independente ou tendencialmente para adultos. Ainda estou para saber se os Quitelys e os Cassadays deste mundo levantam mais um título que os Finchs e os Benes.

    Se estamos numa era de "streamlining", em que os filmes e as séries de tv passam pelos estudos de mercados e "focus groups" e se colocam mamas aqui e ali para fixar a atenção, era inevitável que isso se revertesse nos comics. Se até agora isso não aconteceu, foi porque quem fez superheróis estava interessado em servir as histórias. Hoje uma nova geração, formada com outras bases, não vê grande problema em servir a "coolness" e fazer "swipe" da GQ e...

    Epa! "Endsong" não era assiiiim intragável. Pronto, estragou o Quentin Quire, mas de resto comia-se. Não? Espero que este teu post não tenha sido redigido em autopiloto pela parte do teu cérebro que rejeita artistas com incorreções anatómicas. Sabes perfeitamente que eles até podem ser divertidos (louvores ao Tony Daniel por algumas gargalhadas).

    By Anonymous huhjoão, at quinta-feira, julho 20, 2006  

  • Em relação ao Greg Land (tópico dos meus favoritos e que já me viu ser suspenso do Millarworld um par de vezes), não se trata de julgar a sua obra por um braçito digno dum Scary Movie 2.
    É apenas o mais recente Landismo, a juntar-se a tantos outros que ditosas gargalhadas já causaram, entre abanares de cabeça que indicavam "mas ninguém repara nisto?!"
    Não se pode ser grande artista se tem que se recorrer a cópias de fotografias página sim, página sim.
    Pior, recorre-se a cópias sem creditar as fontes, o que é roubo.
    Já para não dizer que o homem é tão tosco que é incapaz de manter a mesma cópia de painel pra painel, fazendo com que personagem X passe duma jawline definida à Bruce Campbell para uma carinha de bebé redonda logo a seguir.

    E meu caro João, infelizmente cheira-me que o Quitely não será o Viagra para um título que será um Finch.
    Espero estar enganado, mas acho sinceramente que no mercado americano as massas prezarão mais o Fincholas.
    Afinal, ele usa mais risquinhos por metro quadrado, por isso deve ser melhor, né.

    By Anonymous Bruno, at sexta-feira, julho 21, 2006  

  • kual é problema com a scarlet witch?o ombro está à frente e o braço está atrás do corpo,logo, visto nesta perspectiva deve ser desenhado mais curto.só acho estranho é não ter cintura (sim, eu gosto de mulheres com rabo!), e ter as pernas curtas!

    By Blogger Véte, at terça-feira, julho 25, 2006  

  • Err... há mais curto e há "mais curto". Há "mais curto" proporcionado (que seria neste caso uma diferença pouco relevante, dado que a perspectiva é muito pouco acentuada) e este "mais curto" completamente disparatado.

    Não fosse a coisa, que é como quem diz, o braço, estar chegado para trás, eu diria que aquilo entrava pelos olhos adentro...

    By Blogger Mário Freitas, at terça-feira, julho 25, 2006  

  • Relativamente aos comics de 2ª ou 3ª linha não faço comentários, porque há muito que os deixei de ler, e como tal não conheço o trabalho desenvolvido. Tenho mais que fazer e mais que ler do que material (nem lhes chamo criações) que, na melhor das hipóteses, serão não mais que mediano.

    Mas parece-me um excelente momento para comentar o trabalho "editorial" que a Marvel faz aos filmes que permite que sejam criados com as suas personagens.

    Obviamente, e nem seria preciso o bom exemplo da DC (e, como sempre e infelizmente não mais do que isso, bom apenas) com os Batman’s dos anos 90, o primeiro objectivo seria adaptar fielmente os comics ao cinema. Esse foi em parte conseguido (à frente direi em que filmes).

    O 2º, completamente falhado, e mais grave ainda, nem sequer tentado (ou planeado, como ficará claro mais à frente). Seria gerar fantasia que qualquer pessoa, iniciada ou não na área, pudesse ver.

    Se o HA 1 e 2 foram adaptações perfeitas da personagem, (e, com esse mero objectivo, excelentes filmes) isso não implica que não sejam sofríveis, já que a própria personagem o é (mas, juntamente com o Conan e o Tenente Blueberry, as minhas favoritas – mais tarde também os X-Men). Mas não deixam de revelar, aleluia, respeito pelas suas próprias (da Marvel) BD's.

    O X 2 foi tb um bom filme, e teve o mérito de ter vários momentos de fantasia pura de grande qualidade, que supera o próprio imaginário dos X. Refiro-me ao trabalho com as bolas de metal que o Magneto usa para fugir, por exemplo (há mais 3 ou 4 momentos que agora não me recordo).

    O X 2 tem também o mérito de conseguir mostrar os super-poderes de cada um de forma credível, como fantasia pura, e não como uma amálgama de efeitos pirotécnicos díspares e inverosímeis.

    Também vi o Hulk e gostei, sobretudo das expressões dele quando do encontro com a Betty Ross, na sequência nocturna que desemboca no combate com os lobos, expressões cheias de sensibilidade. Mas também da coreografia dos saltos no deserto (excelente), e da divisão do ecrãn em “vinhetas”, embora não resultasse como contraponto à narrativa fílmica: continuava a ser cinema, não um interlúndio banda-desenhístico (confesso que também não imagino como seria isso possível- mas é, e seria uma experimentação de linguagem bem interessante).

    O Daredevil, a Elektra e o Fantastic Four nem me atrevi a ir ver. Mas fui ver o X-Men 3... e cheio de esperança. A “Dark Phoenix Saga” é uma das histórias da minha vida. E o X2 encheu-me de esperanças. Mas, meu deus... fica para comentar num outro dia. Voltarei a isto. E darei as minhas ideias de como os “editores” dos filmes da Marvel deveriam de facto conceber os mesmos, e de como deveriam planear formas de os interligar, sempre que as personagens fossem conjugáveis (refiro-me aqui aos X’s e ao Quarteto).

    Mas para finalizar, pergunto-me (e também a ti, Mário), para quê este nosso masoquismo? Para quê, se tanta, tanta coisa boa existe para ler, reler e descobrir, dentro e fora da Banda Desenhada (infelizemente, mais fora que dentro), para quê?

    A única explicação que encontro seria a nossa preparação para o caso de termos a infelicidade de ter um filho mongolóide. Assim, estaremos de certeza já bem preparados para suportar, respeitar e entender o acéfalo.

    Por tudo isto, faço aqui um pedido. Falemos apenas de material do mediano para cima neste blog. Não estão os nossos dia a dia normalmente já repletos de mau gosto, imbecilidade e de espectáculos de falta de moral e ética?

    By Anonymous Pedro Farinha Gomes, at quarta-feira, julho 26, 2006  

  • Bem, o Greg Horn e cara de pau, esta cheio da grana, seus desenhos vendem horrores e suas colagens, quanto mais explicitas, mais comentarios atraem e mais revistas são vendidas. Ele sabe desenhar, mas sabe que se fizer o que o marketing solicita, sairá ganhando. Burrinhos os editores, não? Vão contratar um desenhista merda disconhecido e vão vender muito mais, né? Ingenuos vocês... Ate hj se fala do Liefeld, o desenho dos peitoes do Capitao e o mais conhecido e o propio Liefeld se diverte aos fans pedirem para ele desenhar o capitao daquela forma tosca e lendaria. Feio, horroroso, é. Mas ate hj as pessoas falam. E tem grandes artistas como Alan Davis, Garcia lopes, que muitas pessoas nao conhecem e vendem, mas nao tanto quanto os que cairam na boca da critica dos fans.

    By Anonymous Anónimo, at terça-feira, setembro 16, 2008  

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