Espírito Crítico - Blog da KINGPIN BOOKS

quinta-feira, julho 20, 2006

5 Dias, 5 Críticas: Superman Returns

Regresso da Desilusão

E viu a luz do dia o novo projecto cinematográfico, baseado na mais mítica personagem da DC. Foram necessários 19 anos, diversos realizadores, e cerca de 60 milhões de dólares, para que a produção fosse para a frente, com Bryan Singer ao leme.

E, uma vez mais, Singer rodeou-se dos seus mais fiéis colaboradores (argumentistas, directores de produção, director de fotografia) e, com cerca de 200 milhões de dólares, apresenta este Verão a sequela directa de Superman II de Richard Lester e Richard Donner, ignorando os penosos Superman III e IV.

Com base nesta premissa, parece que Singer entende e respeita realmente o material que tem em mãos. No entanto, depois de ter visto o filme, penso que não conseguiu levar até ao fim as opções em que parecia ter alicerçado o projecto.

E se Richard Donner percebeu que qualquer que fosse a história do Superman a contar, o trabalho dos actores que iriam desempenhar o Superman/Clark e a Lois Lane seria o verdadeiro motor de tudo o resto, parece que Singer não lhe deu a devida importância.

E para se “enterrar”, acentuou o lado romântico, o que mal suportado ainda torna mais evidentes os problemas de casting. Reeve é o Superman e sempre o será, dentro e fora da tela. Brandon Routh é parecido com Reeve e nada mais. Sinceramente a personagem perde a profundidade humana que o caracterizava e Clark Kent passa a ser o Superman com óculos, uma vez que Routh não lhe imprime a postura, os gestos e o desnorte que o caracterizavam na versão de Reeve.

Kate Bosworth de 23 anos fica com a missão de representar Lois Lane depois de ter vingado como jornalista e ter ganho o Pulitzer. Sinceramente não tem culpa do erro de casting cometido e mesmo assim acho que tenta dar o seu melhor. No entanto, penso que não funciona, pois para uma Lois mais madura, mãe e com uma carreira sólida, seria necessária uma actriz bem mais calejada.

Para concluir, Reeve tinha gozo a interpretar a personagem enquanto a Routh parece que o Superman é um fardo com o qual tem de lidar.

Quanto ao filme propriamente, Singer é fiel ao trabalho de Donner aumentando a intensidade romântica. Traz para o projecto Kevin Spacey que é dirigido num registo muito semelhante ao Lex Luthor dos filmes anteriores. Em certa medida fiquei desiludido com isto porque a um actor do calibre de Spacey era exigido uma personagem completamente concebida pelo próprio tal como o fez Gene Hackman nos filmes originais.

E depois CG e pouca emoção. Os efeitos são bons mas por vezes demasiado plásticos, sobretudo quando a personagem do Superman é trabalhada para parecer ter mais músculos. O momento mais espectacular do filme acontece a meio do mesmo, sendo a cena final pouco rica de emoção o que resulta num desequilíbrio e numa certa sensação de: “Só isto? Estava à espera de mais!”.

E existem algum momentos demasiado corny mas que prefiro não revelar pois iria criar spoilers desnecessários. No entanto o que posso adiantar é que a existência desses momentos fizeram-me perceber que Richard Donner foi completamente visionário e criou um verdadeiro clássico do cinema conseguindo fugir ao que de pior poderia criar para esta personagem.

Ao contrário de adaptações recentes de banda desenhada, o filme de Donner é bom em qualquer subgénero e não é somente um filme para apreciadores. Infelizmente o filme de Singer será um filme genial para os fanboys e afins mas será um filme dispensável para a maior parte da indústria cinematográfica e para a maior parte dos amantes de bom cinema. E mesmo assim Singer enche os bolsos e já está aí uma prometida sequela.

Nota:

Queria não deixar de realçar a minha opinião sobre Bryan Singer. Singer é um bom realizador de filmes low-budget tendo no género uma obra-prima intemporal, os Suspeitos do Costume.

No entanto no campo das grandes produções baseadas em comics penso que é endeusado sem grande razão. Os seus X-Men são bons mas também não são aquilo que querem fazer deles.

O maior problema a meu ver neste filme foi o facto que Singer gozar de um reputação que acabou por o deixar tomar más decisões que poderiam ser perfeitamente evitadas. Digo isto baseado num entrevista que li dele na revista “Total Film” em que ele diz que é muito bom naquilo que faz e mostra uma arrogância que demonstra que na indústria actual basta aparecer um tipo um bocadinho melhor que a média para ser logo endeusado (‘I’m pretty good at what I do…” página 94)

Depois diz na entrevista que estavam numa de fazer castings até que ele conheceu o Routh num café e olhando para ele decidiu logo que era o homem certo. Foi com ele à rua e pediu-lhe para fazer que ia voar. Nesse momento a escolha estava feita. Se virmos os documentário do dvd do Superman, the Movie, vamos descobrir que Donner procurou por toda a América, viu centenas de actores mesmo depois de Reeve e só aí fez a sua escolha. Outros tempos, outros públicos.

Fernando Campos

4 Comentários:

  • Bom, discordo desta crítica em alguns pontos. Acredito que Singer faz para se incluir na mesma liga que os primeiros filmes, e tudo o que consegue é uma série de piscadelas de olho, mas não partilhar o pódio. Porém, vale a pena apontar que esses filmes não eram o "clássico incontornável" que se quer fazer querer. O Luthor, a voltinha ao mundo, a bandeira americana, os efeitos especiais, a música do John Williams.. também há "corny" a rodos. Como primeiro blockbuster, ainda hoje me satisfaz, sendo que até sou fã do personagem, mas não costumo vê-lo referido como "histórico".

    Depois, uma contextualização. Parece-me nítido que este filme é claramente superior ao Batman Begins e ao Last Stand, sendo que talvez se equipare ao Spider-man (e aí fala o meu coração de geek, que não perdoa os cgis completos). Segundo uma outra entrevista, na Wired, este realizador não é ofuscado por um grande amor à personagem, mas faz o trabalho de casa. Os efeitos são realistas e espetaculares sem cair no ridículo e a história surpreende algumas vezes, o que tendo em conta o personagem que é e as adaptações recentes, é dizer qualquer coisa. Os actores fazem o que podem, e nisso o Spacey refina a actuação do Gene Hackman. Acho que tudo isto contribuiu para uma actualização do franchise, apesar de não superar os esforços iniciais (embora também possamos comparar com o III e o IV).

    A ver vamos se se paga. Levar com os Piratas das Caraíbas na semana a seguir foi um golpe pesado. Certamente gostava de ver um segundo, mas não estou a ver um novo orçamento de 200 milhões (a propósito, isto corresponde aos 10 anos de desenvolvimento, ou ao orçamento só desta produção?).

    By Anonymous huhjoão, at quinta-feira, julho 20, 2006  

  • As diversas tentativas de trazer a personagem de novo ao cinema custaram cerca de 60 milhões de dólares.
    O filme em si custou cerca de 200 milhões de dólares dando então um total de 260 (segundo o imdb $260,000,000).

    Quanto ao Batman Begins eu achei fiel à bd mas fraco cinematograficamente. O Last Stand a meu ver é bom mas pecado por desprezar as personagens.

    Mesmo assim o melhor que se arranja bom para fãs e bom cinema são os dois Spiderman que têm sim um senhor talentoso no leme, Sam Raimi.

    By Anonymous Fernando Campos, at quinta-feira, julho 20, 2006  

  • Aceito esta crítica mas discordo em varios aspectos.
    É preciso entenderem que as coisas evoluem e,se vao ao cinema com a mente na serie antiga, então vão ficar mesmo desiludidos porque não tem nada a ver.
    A tecnologia evoluiu e isso reflecte - se neste filme.
    Em relação à película, acho que tem pontos fortes e fracos. os fortes são: a representação de Routh que soube encarar o papel que lhe esperava com profissionalismo; tambem os efeitos especiais estão perfeitos, graças ás camaras Genesis criadas especialmente para este filme.
    No entanto, mesmo no melhor tecido cai a nódoa e eu acho que a Mrs. Bosworth não soube capturar a essência da personagem.A relação entre as duas personagens não foi conseguida.
    É verdade que há muita coisa por responder, mas temos de entender que, em principio, há mais dois filmes para serem feitos.
    O Mr. Bryan Singer também esteve bem a meu ver, pela visão que teve e pelos riscos que correu. Acho que lhe devemos dar o benefício da dúvida.
    Em 2009 vamos ver como ficam as coisas.
    Kiss kiss

    By Anonymous Carla, at sexta-feira, agosto 18, 2006  

  • Compreendo o que tem sido dito nas críticas anteriores, e francamente concordo com quase tudo... No fim, o saldo final é mais a dar para o negativo, mas sobretudo por uma questão de preconceito pessoal, que já vou explicar. Da cinematografia às escolhas de casting fiquei contente (tirando, claro, a Kate Bosworth. Fez o melhor que podia, mas com 23 anos naquele contexto não me convenceu. Com um filho de 5 anos?... Brrr.), mas a história e a caracterização da personagem do Super-Homem é precisamente aquela que me irrita profundamente. Porque eu, lamento dizer, sou daqueles pró-Byrnes ferrenhos que acha que um Super-Homem poderoso demais é de uma pobreza extrema em termos de história, e que a pessoa real é o Clark e o Super é a máscara (ao contrário do Batman, porventura). A sério, fico profundamente enojado ao ver um personagem tratar com quase distância e frieza a mãe adoptiva, que o criou até à vida de adulto, e com reverência e direito a citação um fantasma de um mundo morto gravado num cristal. Sou extremamente behaviourista nestas questões: para mim, o que fez o Clark ser o Super-Homem foi a educação que lhe foi dada pelo Jonathan e pela Martha, não foi cá uma fatiota com cuecas por fora das calças dada pelo Jor-El, depois de lhe dizer que os humanos são porreiritos, mas tens de ser tu a guiá-los... Blergh.

    By Anonymous Luís Marques, at segunda-feira, agosto 21, 2006  

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