Espírito Crítico - Blog da KINGPIN BOOKS

quinta-feira, maio 31, 2007

UMA CRÓNICA VINDA DE BEJA - Por favor, contem-me histórias!

Por Fernando Dordio Campos

Como o Mário constata no seu artigo anterior, existe um claro divórcio entre o público e os eventos de BD realizados de Norte a Sul do país. Não penso ser na divulgação que se encontra o verdadeiro problema, mas fundamentalmente no conteúdo da Banda Desenhada feita em Portugal. Indo ao evento de Beja e convivendo com seus os habituais frequentadores, senti-me mal, senti-me um bocado desprezado. Não é que me sinta mal com isso, mas a meu ver essa sensação explica muita coisa.

Eu sou orgulhosamente argumentista, gosto de escrever, já escrevi para diversos meios por prazer e gosto fundamentalmente de contar histórias. Procuro o melhor para o processo criativo, indo a Workgroups, lendo livros e colocando a minha escrita à prova, escrevendo para meios que não conheço e que por uma questão de desafio me atraem. Há cerca de dois anos não sabia nada de argumento de BD, mas a curiosidade fez-me estudar o tema e acho que actualmente consigo contar uma história de um modo honesto e dirigida ao público, sem de qualquer modo deixar de ter o meu toque pessoal.

E porque me senti desprezado? Fundamentalmente porque o argumentista, em Portugal, não existe. O argumentista e o ilustrador confundem-se, sendo na maioria das vezes o mesmo. A cereja em cima do bolo é o facto da maioria dos seguidores da bd nestes eventos achar isso perfeitamente normal. Não vamos pensar que todos os artistas são “Frank Millers”, que escrevem para a sua espantosa arte. O Sr. Milller se não fosse um magnífico artista, nunca teria o prestígio somente pelos seus textos, isso é certo. O inconfundível Geraldes Lino fala muitas vezes que não existem exposições de argumentistas de BD. No entanto, acho isto uma estranha verdade de La Pallice, porque as pranchas de um verdadeiro artista não têm o texto lá. Nesse caso, iríamos expor o quê? Folhas de argumento? Poderá ser, mas terá de ser em casos de argumentista muito especiais.

Preocupante foi igualmente a falta de conhecimento da equipa do Fato de Macaco sobre o livro que estavam a apresentar. Foi necessário chegar então o autor do livro, Rui Gamito, para falar sobre a sua personagem e o livro, Fato de Macaco. Lembro-me de o ouvir dizer que o melhor da personagem é o facto de não ter um passado e não ter um presente, exceptuando o que acontece no livro, propriamente dito. Tecnicamente o livro é bem interessante, está bem elaborado e tem um formato comercial bastante apelativo, mas aqui está o problema da falta de vontade de contar uma história planeada e bem pensada. O Fato de Macaco parece um híbrido do maior problema da banda desenhada, a falta de histórias, mas neste caso com um grafismo interessante e comercial.

O Venham +5 é um fanzine interessante, mas como todos os fanzines nacionais, sem argumentistas residentes. O grupo de artistas, segundo o Paulo Monteiro, é difícil de encaminhar para argumentistas por problemas de egos. Não consigo, e disse-o na altura, perceber a dificuldade em articular um argumentista com um artista. O argumentista tem de ouvir o artista, tem de perceber os seus gostos e tem de ser humilde para colocar essas ideias na história. Mais do que em qualquer outro local, têm de ser uma equipa unida e pronta para a luta. Depois, é fundamental existir um editor atento, que na terceira pessoa olhe para o trabalho com olhar sincero e crítico. É fundamental não esperar, como se vê nestes eventos, pelo: “Sabes desenhar! És muita bom!” e todo o tipo de elogios fácies e estéreis.

Os fanzines são um outro problema, que atrasa a banda desenhada em Portugal. Não tinha a mínima consciência da importância dada a estes trabalhos de fãs no panorama nacional. Como a palavra diz, trabalho de fãs, que poderá ser uma interessante rampa de lançamento, mas nunca um meio em si. O erro é que passam tempo demais a louvar fanzines, e existe um culto sobre os criadores deste tipo de formatos. Não tenho nada contra cultos, mas talvez histórias de 5 ou 6 páginas nunca terão a profundidade suficiente para deixarem um eco na nossa memória. Ou não? O Will Eisner tinha grandes problemas de espaço e mesmo assim tornou o The Spirit uma personagem memorável. E se pensarmos no Peanuts? Ainda teremos dúvida que o maior problema é a falta de enredos e a necessidade que o público tem de lhe contarem boas e imaginativas histórias. A arte é tanto mais enriquecida, quanto melhor for o meio que tiver para brilhar.

Fernando Dordio Campos

quarta-feira, maio 30, 2007

A carteira de cromos repetidos

Maio chega ao fim. Foi um mês eclético, cheio de lançamentos, apresentações, salões e festivais mais ou menos micro. E, confesso, estou estafado. Após uma montagem de exposição e de um lançamento estafante, feitos numa dia de chuva impiedosa; depois de dois fins-de-semana bem comidos e bebidos em Beja; e a seguir a uma noitada 50% bedéfila em Oiã, concelho de Oliveira do Bairro, distrito de Aveiro, confesso: estou estafado.

E valeu a pena, perguntam vocês? Talvez. Sim e não, mais correctamente. Vale sempre pelo "conbíbio" (como narrava a anedota), pelas comezainas, copos e larachas trocadas com boa gente como o Pepe, o Lino (quando não amua), o Pedro Moura ou o Zé Carlos Fernandes. Mas falando francamente: será que a BD nacional avança alguma coisa, o que quer que seja, com este tipo de salões e eventos? Pedindo emprestada a brilhante analogia feita pelo JC Fernandes no BD Jornal, é nítido que o mundo da BD portuguesa caberia numa colecção de 200 cromos bem contadinhos. Mas a situação é ainda mais grave, acrescento eu: chego às vezes à conclusão que, nestes certames mais pequenos (Beja, Moura, "Aveiro"), o número de autores e críticos presentes chega a ser claramente superior ao número de visitantes. Pior ainda: estes visitantes são quase sempre os mesmos, pelo que se os autores e outros que gravitam à sua volta cabem perfeitamente numa caderneta de 200 cromos, então os visitantes parecem caber numas poucas carteira de cromos, mais grave ainda, numas poucas carteiras cheias de cromos repetidos.

O divórcio permanente entre estes eventos e as populações locais parece incontornável e irremediável. Dando o exemplo do recente Micro Festival de "Aveiro", verificou-se que, a partir do final das sessões de autógrafos, o evento morreu enquanto festival de BD. Os presentes entretanto chegados à discoteca (local do evento) mais não queriam que beber os seus copos e abanar os seu capacetes, e os poucos que terão percebido estarmos perante uma festa de BD olhavam para a banca da Dr.Kartoon como boi para palácio. Em resumo: muito boa vontade, mas uma incapacidade permanente para atrair público. O que fazer contra isso? Confesso que já pensei ter algumas ideias (nomeadamente sobre a forma como as bedetecas estatais deveriam canalizar os seus recursos), mas hoje já duvido seriamente se é possível atrair um público acéfalo e inane que, manifestamente, não quer ser atraído. Safar-se-á, no meio de tudo isto, o eterno FIBDA (Festival blá blá blá da Amadora, para os mais distraídos) que, com todos os seus inúmeros defeitos e mesmo com uma perda significativa de público ao longo dos anos, continua a ter gente, continua a ter visitantes, continua a ter compradores. Nos outros lados? Cabem todos numa carteirinha de cromos repetidos.

terça-feira, maio 29, 2007

Estudando o regresso

Pobre blog abandonado
Jaz triste e desamparado
Longos meses de jejum
Posts não houve nenhum

Se isto fizesse menos sentido, não resistia à tentação de assinar "Pedo Rocha Nogueira", essa sumidade da BD nacional...