Espírito Crítico - Blog da KINGPIN BOOKS

sábado, dezembro 15, 2007

Crítica a SUPER PIG #1-3

Tomei a liberdade de transcrever aqui a excelente crítica que João Machado fez no fórum da Kingpin, sobre os números já publicados do Pig:

"Antes de mais, é necessário notar que não escrevo esta crítica a pedido. É verdade que, conhecendo o Mário, senti desde o início que a ambição que ele teve e tem era notável e disse-lho. Mas não comprei nenhum livro dele. Recentemente apercebi-me que o "apoio moral" é insuficiente e até mesmo hipócrita em projectos que têm dificuldade em lucrar, e além do mais reparei que ninguém tinha feito uma crítica extensa ao SUPER PIG, o que só deu razão aos argumentos de injustiça do Mário. Esta recensão é o meu modo de fazer essa dupla justiça.

Na introdução do David Soares ao SUPER PIG #1 são trazidos à liça os nomes de Ayn Rand e George Gissing, e involuntariamente dá-se o mote a uma tentativa de intelectualização, mesmo que o todo da introdução verse sobre a experiência da criação, lembrando-nos do momento áureo em que a história do próprio se transforma também na história do outro, a magia acontece, e a partir dela, mais um ror de coisas muito gay. Se ignorarmos essas coisas por um momento, o esforço de encontrar uma leitura erudita em SUPER PIG é-nos legado como o bastão de uma estafeta, vide o elogio ao leitor culto e o recurso a referências com dispensa de explicação. Temos que admitir essa pulsão e conjugá-la com o resultado.

No trabalho da filósofa Ayn Rand existe uma tensão primordial entre o indivíduo e o colectivo, com o elogio do indivíduo que preserva a sua idiosincracia e se sobrepõe ao juízo da massa. Grosso modo, este é também o tema dos dois primeiros números da revista, com o herói a ser atacado por uma entidade sem rosto que representa os piores defeitos do que numa primeira leitura parece ser o povo português. Porquê? Porque é diferente. O que não disse em relação a Ayn Rand é que ela está historicamente balizada por uma das utopias do século XX que se opôs ao capitalismo, o comunismo, demonstrando a sua pujança na medida em que arrisca identificar-se com o edifício ideológico a que pertence. Se isto parece arrojado, coloco de outra maneira: Ayn Rand olha para o sistema americano e diz que sim. SUPER PIG é, nessa linhagem, igualmente facilitista, porque oferece o heroísmo do protagonista "porque sim", e demonstra a sua popularidade pela "coolness" dos seus bens materiais (onde podemos incluir "resmas de gajas"). Isto é o que concedo a nível intelectual.

Quando se assume euforicamente que a linguagem desta bd é "ostensivamente" a americana, não adianta bradarmos aos céus que se falhou cumprir uma linguagem verdadeiramente original da bd portuguesa. SUPER PIG fala de Cassiano Branco, a PJ, o IEFP, nomeia ruas, não se esquiva nas expressões, e se eu não for um bairrista primário, tenho que reconhecer que o meu país também está aqui. Os autores enformam a história na linguagem do "comic book" porque se sentem confortáveis nela, e de facto parecem ter toda a facilidade em pôr e dispôr das suas convenções, plásticas e temáticas. Com isto não pretendo colar SUPER PIG à produção americana, mas salientar que o uso dessa linguagem permite uma arquitectura narrativa extremamente eficaz e ímpar quanto a primeiros trabalhos. Todos os painéis se ligam, contam uma piada, acrescentam qualquer coisa, e quando parece inevitável o cliché próprio das comédias mais comerciais (a visita à loja de roupa, o restaurante japonês), a expressividade mais familiar do cartoon alivia-nos esse tédio.

É importante falar da proximidade de SUPER PIG ao cartoon. Se há ligação explícita ao universo dos superheróis, porque é que o protagonista é um porco antropomórfico? Não se tratando de CEREBUS, a minha explicação é que o PIG torna as tais convenções mais agilizáveis e liberta os artistas da canga obsessiva do realismo anatómico. Adicionalmente, é possível representar a realidade portuguesa (no caso, Lisboa) sem ter que seguir à risca o retrato fotográfico-turístico da cidade, e no cômputo geral, funcionar-se com um grau de verosimilhança onde não temos que nos perguntar se aquelas ruas existem talqual, se aquelas pessoas são possíveis naquela cidade, e se uma doméstica que tem telefone de disco e faz arroz doce anda vestida de tailleur. Não esquecer ainda que os melhores momentos cómicos da revista são produzidos pelos trocadilhos, esperados mas divertidos, com a presença de um porco em cena com humanos.

O chorrilho de referências pode aliás ser tão prazenteiro como duvidoso. Quando Pig visita a Loja do Zé CIDadão, consideramos isto uma referência ou uma piada esfregada na cara? É urgente que todos os nomes e marcas apareçam trabalhados em forma de trocadilho? A determinada altura, já estamos a ver o que nos vai acontecer: Pig vai comprar um fato, é o "Emporio Armando", vai ao restaurante, é o "Sushimarrão", pega no jornal, é o "48 segundos". E depois há as referências simplesmente incompreensíveis: "Live Hate/8" serve alguma crítica ao seu semelhante real ou é só um destes caprichos? Quanto ganho não haveria se a dita loja fosse povoada por José Cid's mas retivesse o seu nome original? Quando aparece "há vida para além do orçamento" já confundimos este manifesto de intenções, e talvez não exista qualquer referência, mas é difícil ter a certeza (atenção ao negrito). Há também que ter cuidado com os estrangeirismos, porque uma linguagem pop pretende precisamente universalizar-se o mais possível, e se se consegue fazer uma utilização particular do modelo lá de fora, porque não funcionar em exclusivo com a língua que temos? SUPER PIG tem aí a ambiguidade de ser um convite aos que se situam fora do "mundinho da bd portuguesa" enquanto discute as "suas" "full bleeds" e "character bits", Lokis e Klarions.

Sem desprimor ao trabalho do Carlos Pedro, SUPER PIG é elevado ao quadrado quando chegamos ao número 3, desenhado por Gevan (recuso-me à maiúscula e aos dois pontos). É verdade que as indicações do Mário Freitas no #1 sobre os esquemas de página e o trabalho da arte final já haviam reduzido algum do valor próprio do Carlos Pedro, e quando o novo artista merece edição a cores, há algo que nos é dito sobre a bitola. O terceiro número é mais luxuoso e, ele sim, contém os painéis de maior qualidade. Há espaço no terceiro número, no sentido de densidade tridimensional, sem perder de vista os rostos caricaturais. Um artista que é também designer pode apresentar mais problemas do que aquele artista a quem entregamos esquemas e finalizamos a arte. Parece que no caso o artista faz as suas regras, abre-se à experiência, e portanto atinge mais extremos. Sequências de excelência -a casa do Pig, o jardim exótico, o fim da reunião- convivem com sequências em que o artista quer desesperadamente ter mais um efeito -a bola de cores e as bordas de painel em metal, na prisão, e a aproximação/afastamento frenéticos das últimas três páginas. Houve uma melhoria nítida, mas pergunto-me, será possível um híbrido dos dois artistas? Um poderia trabalhar o seu traço solto e expressivo em lápis, enquanto o outro potenciava o desenho com cores, traço espesso, e objectos produzidos digitalmente.

O terceiro número é também o do maior delírio, e aqui finalmente saímos do [prometido] passeio introdutório pela cidade. O que havia sido referido antes pode enfim vir à frente, e a vilã/vizinha Gertrudes faz parte definitiva do elenco. Há um polícia velho-sabujo que é igual a todos os polícias velhos-sabujos, com casaco de aviador e desprezo pelos outros na ordem 1) o poder instituído 2) os novatos 3) o protagonista. Há o par gangsters e empresários e o par polícias e ladrões, muito americaninhos. Pig torna-se um filantropo e obtém recursos ilimitados, o que contradiz ligeiramente a própria acepção do tratamento 'cartoon', mas admito que a série continua e que é mais um caminho para obter a máxima fantasia. A história curta que preenche o resto da revista já assume esta "opção de carreira" e, como se via em algumas páginas da história principal, demonstra que há muito território inexplorado.

O que é então o SUPER PIG? É um projecto narcísico como muitos da bd nacional, com a diferença de esta não ser a história de um autor que se abandona a si próprio, mas que se engrandece pela ficção e se enche de força para entrar noutros mundos muito mais vibrantes. Exactamente o mesmo processo que quando os ligrinhas judeus inventaram um homem de Krypton "em cima" de Douglas Fairbanks. Estamos dentro do método americano, mas esta história sabe o que está a fazer e ao que vem. Quando falei com o Mário, ele não estava muito satisfeito com o segundo número, e curiosamente foi esse que mais me satisfez. A história curta que completa a revista introduz Gevan como o novo artista, num sonho de Pig que promete muitas histórias. O Mário suspende o registo reticências-bang! por algumas páginas e limita-se a aparecer como personagem, definir o esquema de página, e sobretudo a lançar conceitos tão sugestivos que quase se tem medo que sejam mesmo explorados - cuidado para não estragar!

Notas

* Comecei a acelerar nos últimos parágrafos porque tive medo de estar a ser chato. Também posso estar a parecer pretencioso, mas como é uma crítica a uma obra de alguém que eu conheço, prefiro não ser mal interpretado.

* A ver se eu percebi: o Gevan mora ao pé da ETAR e ao pé do Casal Ventoso? Podia morar num sítio pior? Vocês põem isso na biografia dele? Querem-lhe mal?

* Curvo-me perante a aparição do Jel."

quinta-feira, dezembro 13, 2007

Pobre País o nosso...

"O abaixamento dos mínimos critérios de qualidade, vindo «de cima», é um poderoso factor de popularidade e sucesso.No fundo, ficamos todos mais iguais, não é? E não é esta «igualdade» o nome que se dá à inveja ressentida, que tão profundamente enche a nossa sociedade?"

José Pacheco Pereira in "O Paradoxo do Ornitorrinco"

quarta-feira, dezembro 12, 2007

A Última História do OmniMaldicente

Há alguns meses, fui convidado a colaborar com a edição comemorativa dum (para alguns) saudoso fanzine da nossa praça. O resultado é as duas páginas que poderão ver a seguir, uma paródia "carinhosa" ao editor do fanzine em causa, que muitos reconhecerão facilmente.

Dado o atraso com que a edição já se encontra face à data prevista de lançamento, e perante as minhas sérias dúvidas que alguma vez veja a luz do dia, decidi então compartilhar convosco esta singela aventura, escrita e legendada por mim e ilustrada pelo meu habitual colaborador Carlos Pedro.

Cliquem nas imagens para ampliar e divirtam-se.

terça-feira, dezembro 11, 2007

Inane Idade

Estou numa fase estranha. Incómoda. Tão depressa tenho rasgos súbitos de criatividade e concebo uma história inteira em poucos minutos, passando-a de imediato ao papel (que é, como quem diz, para o Word), como passo horas seguidas a vegetar com vontade de tudo menos de escrever ou criar o que quer que seja. Minto. Também não tenho qualquer vontade de fazer qualquer outra coisa que seja. Será depressão?, pensam os especialistas… Não sei, talvez… Ou desânimo puro e simples. Um desalento alienante que parece agravar-se com a idade e com a consciencialização crescente que o que me rodeia pouco ou nada evolui. Pior, sinto que muito passa rapidamente da estagnação ao retrocesso, e das várias coisas que me vêm à mente, vislumbro à cabeça a incapacidade crítica e analítica de esmagadora maioria dos fugazes habitantes do planeta Terra e, muito em particular, deste cantinho à beira-mar plantado que muitos alcunhariam patrioticamente de “nosso”.

A facilidade com que se apregoa a genialidade ou a simples qualidade de fulano ou beltrano, faz-me desejar ter nascido sicrano. Se essa facilidade é genuína e simplesmente fruto de ignorância ou inanidade, ou se antes transborda desse hábito desprezível que é o nacional-porreirismo proselitista, é algo variável de acordo com os protagonistas. Porém, essa facilidade existe; e é uma facilidade que reflecte facilitismos (passe o pleonasmo), que reflecte a mentalidade do muito em detrimento do bom, a mentalidade do mais em vez do melhor, do denso ao invés do escorreito. Para a inanidade crítica, a cor é superior ao preto e branco; o detalhe atafulhado e claustrofóbico é superior à simplicidade clara e objectiva; a beleza repetitiva e silicónica é superior à diversidade da figura e da forma.

Mas o mal não é, de todo, um exclusivo nosso: li algures a semana passada que o artista Max Fiumara tinha sido afastado de Infinity Inc., um dos novos títulos mais marginais da DC, por ter, alegadamente, um estilo “demasiado Vertigo”! Mas que disparate é esse? Demasiado Vertigo? Mas não estará a Vertigo precisamente associada a alguns dos títulos de sucesso mais duradouro nesta indústria feita crescentemente de títulos efémeros? Não estarão muitos dos artistas associados aos títulos da Vertigo entre os melhores e mais sólidos narradores visuais da BD americana? Então, repito, que disparate é este de se ser “demasiado Vertigo”? Faltam as poses disparatadas, as vinhetas trapalhonas que se sobrepõe e atropelam, os riscos e linhas inúteis colocados muitas vezes de forma arbitrária? Pois, deve ser isso que falta…

Voltando agora aqui ao burgo (a quem muito falta), e já que estou numa de disparar em todas as direcções qual G3 desgovernada, continuemos. Já escrevi algures sobre isso e já terei decerto vociferado bastantes vezes mais contra tal facto: a alegada facilidade em escrever para BD e a quantidade crescente de “estórias” e “argumentistas” que surgem, muitos dos quais desconhecendo em completo a ferramenta única indispensável para se poder vir a ser um argumentista – saber escrever e dominar os fundamentos básicos da língua em que escrevem, neste caso o Português. A partir daí, poderíamos depois discorrer sobre rasgos de inspiração, ideias ou a originalidade destas, sobre estrutura narrativa, ritmos e pausas, enfim, sobre as diversas técnicas que permitem transformar a semente inicial que brotou na mente do criador num objecto plausível de ser interpretado e, desejavelmente, compreendido e apreciado pelo leitor, receptor final da mensagem (a não ser, claro, que façamos algo destinado apenas ao apetite voraz do nosso umbigo).

O leitor… Infelizmente, o leitor (tal como o cliente) não tem sempre razão e é bastas vezes acossado da tal incapacidade crítica a que comecei por aludir. Confesso que uma das correntes de opinião que me irrita solenemente (e vão me perdoar alguns dos meus leitores que sei que se inserem nela) é a conversa estilo “foi só o primeiro número, não dá para ter uma opinião sobre a história ou sobre a escrita”! Ó meus amigos… sobre a história ainda vá; dou isso de barato; agora, sobre a escrita? Sobre a capacidade literária, narrativa, técnica, comunicacional de um argumentista? Às vezes basta uma página, quanto mais um número inteiro! Tenho lido coisas de pseudo-argumentistas que são de bradar de céus, desde erros ortográficos grosseiros até uma completa incapacidade em distinguir uma vírgula de um ponto final, passando claro por diálogos ilógicos e absurdos que transformam qualquer novela da TVI no mais requintado exercício shakespeariano. Perdoem-me, mas não preciso de ler um compêndio de 100 páginas de barbaridades narrativas e atentados semânticos para ditar o veredicto final.

Mas sosseguem agora os caros leitores, tão indecorosamente por mim visados no parágrafo anterior. A falta de capacidade crítica não é exclusiva deles; bem pelo contrário. Quem mais senão os próprios criadores são claramente afectados por essa maleita castradora que é a falta de capacidade auto-crítica e auto-avaliadora? Quem mais senão eles, tantas vezes encouraçados numa teimosia empedernida que transforma qualquer erro numa opção estilística predeterminada e qualquer crítica endereçada num ataque pessoal aleivoso? E quantos não revelam uma completa cegueira artística, ignorando sugestões e críticas perfeitamente fundamentadas, e apelidando desenhos manifestamente falhos de “anatomicamente perfeitos”?

“Mas”, já ouço a plateia a sussurrar, “não és tu próprio autor, ou aspirante a tal, e o que te faz pensar que estás imune a essas fraquezas pessoais, afinal tão humanas?”. Nada, meus caros, a não ser a minha determinação férrea e contínua de melhorar, de aperfeiçoar o que faço e o que ajudo a concretizar. E é essa determinação que me tem feito escutar, ponderar, dissecar tudo o que tem sido dito ou escrito sobre os livros que já gerei ou editei, da crítica mais assertiva e concreta à grosseria mais maldosa e mais mal intencionada. Porque até entre um chorrilho de frases feitas, destinadas exclusivamente a destilar o ódio e as frustrações próprias e a gerar a dúvida entre os capazes, se conseguem retirar ensinamentos úteis. Assim fiz desde o primeiro momento, e assim continuarei a fazer enquanto o acto criativo e a edição me derem gozo e realização pessoal, e enquanto sinta que isso ecoa favoravelmente de algum modo entre os que me lêem e entre os que comigo colaboram. Se assim não for, ou quando tal deixar de acontecer, “fecho a porta” e vou pregar para outra freguesia; a BD portuguesa passou muito anos sem mim e não será o meu “desaparecimento” que ditará a passagem do estado pré-comatoso em que se encontra ao de morte definitiva, até porque no mercado não existe essa coisa da “irreversibilidade”.

Mas longe vá o agoiro e esta ridícula profecia quase suicidária do meu próprio enterro! Deve ser fruto da “silly season” que atravessamos ou, então, fui subitamente contagiado pela nuvem de inanidade que paira ameaçadora sobre nós. Sendo assim, urge então dissipá-la e clarear o horizonte de 2008 que se avizinha já aí; 2008 que se faz anunciar ribombante cheio de novas iniciativas, novas edições, novos eventos, em resumo, o mesmo de sempre. Pela minha parte, apelando à costela de Zandinga que há em todos nós, antevejo um ano de mudanças; profundas mudanças; o porquê disso, prefiro deixá-los a pensar; porque temos todos de começar a habituar-nos a pensar, mais e melhor; porque já estamos todos na idade de combater a inanidade. Um feliz Natal e um próspero Ano Novo.