Espírito Crítico - Blog da KINGPIN BOOKS

segunda-feira, julho 27, 2009

Tara McPherson: final de festa

Enquanto aguardo pelas fotos principais da sessão de autógrafos com a Tara McPherson aqui na loja, tiradas com a câmara da própria, aqui ficam algumas fotos dos momentos finais da tarde e do after hours que se seguiu. Aproveito desde já para agradecer a todos os inúmeros presentes a gentileza da comparência, embora me esteja a preparar para tecer algumas considerações menos simpáticos para com certo tipo de ausentes. Para breve.

sexta-feira, julho 24, 2009

Workshop: Winsor McCay

O 5º módulo do Workshop integrado de BD na Kingpin Books tem sido dedicado à análise de autores marcantes, desde os mais clássicos aos contemporâneos. A primeira dessas dissecações foi elaborada pelo Nuno Lopes sobre Winsor McCay, e tenho o prazer de aqui transcrever o texto completo:

E Então Surgiu McCay!
Texto de Nuno Lopes

Como surgiu a banda desenhada tal como a conhecemos hoje? Quem foi o pioneiro neste meio de contar histórias, que de entretenimento popular para jovens rapazes, se tornou na chamada 9ª arte? Desde o tempo em que os nossos antepassados viviam em cavernas, que o ser humano desenhava figuras com o propósito de comunicar; os egípcios deixaram-nos os hieróglifos, cujas figuras dispostas sequencialmente transmitiam mensagens . Mas quando foi que se iniciou o método de conciliar desenhos e palavras interligados para narrar uma história? A quem se deve tão engenhosa criação? Caros leitores e leitoras, apresentamos o pai da banda desenhada tal como a conhecemos: Winsor McCay!

Antes de McCay, já outros autores criavam histórias conciliando imagem e palavras, como Rodolphe Topffer (Histoire de Mr Jabot, 1833) ou Wilhem Busch (Krischan Mit Der Piepe, 1864). Estas histórias caracterizavam-se por serem ilustrações dispostas de forma sequencial, com o intuito de apresentar uma narrativa; legendas debaixo de cada vinheta resumiam a narrativa e também apresentavam o diálogo das personagens. E então surgiu McCay! A sua grande inovação foi a introdução de balões de diálogo dentro da própria vinheta, associados a cada personagem que intervinha verbalmente. Para além disso, McCay inovou no modo de transição narrativa entre vinhetas e até no próprio formato das vinhetas. É por estas razões que se diz que Winsor McCay foi o pai da banda desenhada, tal como a conhecemos hoje.

Zenas Winsor McCay nasceu na segunda metade do século XIX. A data exacta do seu nascimento reveste-se de incerteza: ele dizia ter nascido no Michigan em 1871; a sua lápide diz que nasceu em 1869; segundo alguns historiadores de animação, terá nascido no Canada em 1867. Ainda hoje não se sabe ao certo nem o local, nem a data exacta de nascimento de McCay. Zenas era o nome do patrão do pai de McCay e seria mais tarde abandonado por Winsor. Desde cedo revelou talento para o desenho, mas o seu pai tinha planos diferentes para ele. Enviou-o para Ypsilanti, no Michigan, para que o filho aprendesse a gerir negócios. Mas a paixão de McCay era desenhar e era assim que queria ganhar a vida. Trabalhou em dime museums desenhando retratos e era de tal modo bom observador e rápido a desenhar, que se tornou bastante apreciado. A única formação em arte que teve foi com John Goodison. Goodison era um antigo tintureiro de vidros e influenciaria o uso de cor e perspectiva de Winsor McCay. Trabalhou como ilustrador para várias publicações (quer no Michigan, quer depois em Chicago). As suas primeiras tiras foram Tales of the Jungle Imps by Felix Fiddle, publicada em 1903, no National Enquirer; as histórias eram acerca de criaturas da selva e a forma como se adaptavam ao ambiente hostil.

Antes de criar a sua obra-prima, Little Nemo in Slumberland, em 1905, criou em 1904 Little Sammy Sneeze e Dream of a Rarebit Fiend (este último assinado com o pseudónimo Silas, devido a exigências editoriais). Little Nemo in Slumberland conheceu grande sucesso, tendo sido adaptado à Broadway. McCay foi também um pioneiro no cinema de animação, concebendo filmes de Little Nemo (1911), How a Mosquito Operates (1912) e Gertie, the Dinossaur (1914). Gertie é considerada por vários historiadores do cinema de animação como a primeira personagem animada criada especificamente para filme a ter uma personalidade única e realista. McCay também foi autor de cartazes de propaganda patriótica (alguns de incentivo às forças americanas que participaram na Iª Guerra Mundial). Morreu em 1934 e deixou um legado que influenciaria vários autores e artistas, como Walt Disney ou Moebius.

Sendo um artista à frente do seu tempo, Winsor McCay influenciou mais artistas do que aqueles por quem foi influenciado. Entre os autores que influenciaram a sua obra contam-se Lewis Carroll e James M. Barrie. Em termos de correntes artísticas, notam-se as influências de Art Nouveau e do Surrealismo – esta mais visível nas tiras Dream of a Rarebit Fiend e Little Nemo in Slumberland. Também as teorias de Sigmund Freud tiveram uma grande influência nas tiras de McCay passadas no mundo dos sonhos. Foi a vontade de experimentar, de variar na forma como contava as suas histórias, que levou McCay a criar a banda desenhada como a conhecemos hoje.

Em Little Nemo in Slumberland, unanimemente considerada a sua obra-prima, é possível constatar as marcas características do brilhantismo de Winsor McCay. Little Nemo tinha como protagonista um menino chamado Nemo que viajava até ao mundo dos sonhos (Slumberland), cada vez que sonhava. O rei Morfeu enviava mensageiros para conduzirem Nemo ao seu palácio, pois a filha do rei sentia-se triste e requeria a presença do pequeno Nemo para brincar com ela. O problema é que cada vez que Nemo tentava chegar ao palácio do rei do mundo dos sonhos, algo acabava por correr mal e Nemo acabava por acordar bruscamente (umas vezes caindo da cama, outras acordando aos gritos). Cada tira de Little Nemo in Slumberland mostrava uma aventura de Nemo no reino dos sonhos e as suas tentativas para chegar ao palácio do rei Morfeu.

Devido ao seu universo onírico, encontramos em Little Nemo diversas situações bizarras e personagens irreais. O mundo dos sonhos é maravilhoso, mas também pode ser violento e assustador. No entanto, Little Nemo in Slumberland era dedicado às crianças, não sendo tão perturbador como Dream of a Rarebit Fiend – esta tira explorava o mundo dos sonhos numa vertente mais próxima dos pesadelos, envolvendo deformações, desmembramento ou morte. Apesar da acção de Little Nemo se desenrolar no mundo dos sonhos, há uma prevalência da realidade – por isso as histórias terminam com Nemo a acordar, muitas vezes de forma brusca (cai da cama). Em diversas tiras, os diálogos da penúltima vinheta eram diálogos de transição para a realidade, na qual Nemo chamava ou era chamado por um familiar (a mãe, o tio, o pai) em sonho, estando o mesmo a acontecer na realidade e sendo mostrado na última vinheta. A influência de Freud é visível, por exemplo, no facto das perturbações do inconsciente (os sonhos) terem explicações na realidade: o pai ou a mãe que repreendem Nemo por ter comido antes de dormir.

O mundo dos sonhos em Little Nemo in Slumberland adquire maior relevo através do uso de cores vivas e em termos de perspectiva: McCay era um mestre no uso de perspectiva, conseguindo transmitir na perfeição a noção de espaço amplo e vasto. O domínio perfeito do ritmo e do movimento conferiam às suas histórias um dinamismo singular, permitindo contar histórias que, apesar de curtas (apenas uma página), eram bem estruturadas narrativamente – como a sequência da corrida do cavalo, na primeira história de Little Nemo.

Sendo pioneiro numa nova arte de contar histórias, McCay fazia várias experiências para tentar construir as narrativas de forma mais eficaz e para tentar verificar qual o melhor tom narrativo: nos primeiros tempos, a combinação de imagens e palavras era feita a partir de alguns diálogos, mas principalmente através de legendas explicativas fora de cada vinheta; depois continuou com diálogos mas as legendas apareciam apenas na vinheta do título, explicando o que iria acontecer; finalmente percebeu que através do movimento que dava à narrativa e aos diálogos, conseguia contar histórias sem legendas explicativas. Também o uso das vinhetas era bastante diversificado e dinâmico (cada vinheta representava uma acção): desde vinhetas quadradas mais convencionais, a vinhetas redondas no centro da página para realçar um evento, e vinhetas rectangulares compridas – estas de dois tipos: as horizontais, fazendo parte do uso calculado de perspectiva e que serviam para mostrar um cenário amplo; as verticais, que acompanhavam colunas, pernas ou andas, com o propósito de transmitir uma noção de elevada altitude.

Outro dos efeitos explorados por McCay era a variação de planos, desde planos de perfil, até grandes planos. O traço de Winsor McCay era um traço nítido, criando formas facilmente perceptíveis. Os fundos eram desenhados com um tom mais preciso (quase realista), enquanto que o rosto das personagens tinha linhas mais simples e até caricaturais (efeito que permitia uma maior identificação do leitor com a personagem), contribuindo também para um efeito de espontaneidade na reacção das personagens. Em termos de materiais usados, McCay começou por desenhar a lápis, experimentando depois com caneta.

O legado de Winsor McCay é de tal forma significativo que mesmo hoje em dia, mais de um século depois da criação das suas primeiras tiras, não deixa de nos espantar o que descobrimos quando revisitamos a sua obra. A influência de McCay está ainda hoje muito presente no que se faz actualmente em cinema de animação e, principalmente, em banda desenhada (quer essa influência seja directa, quer seja indirecta – através de autores contemporâneos cuja obra é influenciada por McCay). À luz das grandes alterações tecnológicas e artísticas que sucederam desde a época de McCay poderemos até olhar para as suas tiras como datadas, no que se refere à apresentação gráfica; mas de certo não conseguiremos negar uma excepcional qualidade artística e uma prodigiosa imaginação que ainda hoje nos faz sonhar.

quarta-feira, julho 15, 2009

TARA McPHERSON, Sábado, na Kingpin Books

É já no próximo sábado, 18 de Julho, às 17h, que a ilustradora Tara McPherson estará em Lisboa, na Kingpin Books, em mais uma etapa da sua digressão europeia de promoção do seu novo artbook, "Lost Constellations - The Art of Tara McPherson vol.2".

A carismática artista americana estará presente na loja para uma sessão de autógrafos e troca de impressões com os seus fãs, muitos deles granjeados durante a anterior passagem de Tara por Portugal, em Outubro passado, por ocasião do último Festival da Amadora.

A presença de Tara McPherson na Kingpin Books será acompanhada por uma mostra de serigrafias da artista na loja , seleccionadas entre o seu trabalho em banda desenhada (nomeadamente Fables) e o design de múltiplos posters promocionais para bandas de renome como Depeche Mode, Duran Duran, Interpol, Beck, Kings of Leon, Melvins e outros.

Amanhã (5ª feira), durante a tarde, serão colocados aqui mais detalhes sobre a presença de Tara em Lisboa, nomeadamente os dias e horário em que a artista estará disponível para contactos com a imprensa.

Conto convosco!

terça-feira, julho 07, 2009

Invasão nipónica!

Caríssimos,

Para animar o vosso Verão, chegaram a semana passada carradas de novas coisas à loja, nomeadamente figuras, porta-chaves e peluches das vossas séries favoritas. Naruto, Death Note Dragon Ball, Fullmetal Alchemist, Bleach, Soul Eater, Vampire Knight, Rozen Maiden, Reborn, One Piece e afins. Aí ficam então algumas fotos:

sábado, julho 04, 2009

Apontamentos

Isto não são críticas. Nem são recensões. São apenas breves apontamentos sobre as minhas últimas leituras de cabeceira.
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DARK REIGN: SINISTER SPIDER-MAN #1

Chris Bachalo é um artista único. Numa indústria povoada por desenhadores sem qualquer identidade e que não passam de imitações geralmente baratas uns dos outros, Bachalo é uma lufada de ar fresco com o seu estilo expressionista caricatural e a sua composição de página dinâmica mas legível (pelo menos de há uns anos para cá, depois de assentar de vez o vício dos destroços flutuantes).

As cores - que partilha com Antonio Fabela - são soberbas, com recurso a uma palete sóbria e contida em que muitos pseudo-coloristas da indústria deveriam pôr os olhos para perceberem de vez que não passam de técnicos glorificados de photoshop; eles e os editores ignorantes que os glorificam e que lhes dão trabalho.

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DARK AVENGERS/UNCANNY X-MEN: UTOPIA

Utopia representa tudo de errado que persiste em boa parte dos comics de super-heróis das grandes editoras. Pegue-se em Marc Silvestri, um artista datado e bafiento que nunca percebeu que os anos 90 terminaram há 10 anos, junte-se quase uma dúzia dos seus clones / colaboradores / seguidores da Top Cow numa orgia de lábios com colagénio, e polvilhe-se com um Matt Fraction desenquadrado, desinspirado e banalizado. Este não é, decididamente, o Fraction de Casanova, o Fraction de Immortal Iron Fist, nem sequer o Fraction de Invincible Iron Man; é antes um Fraction resignado à sorte de escrever para um narrador incapaz como Silvestri.

O resultado é um início enfadonho e penoso de um crossover que devia ter acção, criatividade, ideias e brilho; mas brilho, aqui, só mesmo o do colagénio.

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DETECTIVE COMICS #854

Batwoman estreia-se como personagem principal em Detective Comics. Batwoman é lésbica. E Greg Rucka escreve bem, mas até um macaco o faria, se tudo isto não fosse irrelevante perante a arte de J.H. Williams III. Repito: a história está bem escrita, mas honestamente acho que seria capaz de a ler mesmo que narrasse "As Aventuras de Manoel de Oliveira"; Williams é hoje em dia, a brincar, um dos 2 ou 3 artistas de topo na indústria. Digo mais, até: em termos de inovação na composição e na procura de novas soluções gráficas com as técnicas mistas que usa, é, de longe, o maior.

E não me sai da cabeça que um dos estilos que usa (o de linha clara, aplicado nas cenas civis de Kate Kane) é uma homenagem e uma forma de perpetuar a obra do falecido amigo (dele e meu) Seth Fisher, um visionário que partiu quando mal tinha começado a mostrar toda a genialidade que habitava aquela mente inquieta e desafiadora.

Detective 854 é um comic book exemplar; um modelo no design, na arte, nas cores sublimes do incomparável Dave Stewart; um exemplo até na forma como fazer bem o revamp de um título, enquadrado neste caso no revamp de todo um franchise. E é com esse franchise e o seu flagship title que concluo a seguir...

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BATMAN AND ROBIN #2

Grant Morrison e Frank Quitely. Não será certamente por acaso que as opiniões sobre a marcante dupla escocesa têm sido sempre tão polarizadoras ao longo dos anos. A inovação e a irreverência têm um preço, e estar um passo (ou bastantes mais) à frente significará sempre que grande parte da potencial audência não irá absorver ou atingir vozes autorais tão características.

Em meia-dúzia de linhas, Morrison mostra o que o distingue: só ele para pôr Dick Grayson a falar em calão circense europeu! E parece tão óbvio, algo que deveria ser tão único da personagem; porém, é a primeira vez que algum argumentista o faz. Receio que venham aí tentativas infrutíferas de imitação...

Sobre Frank Quitely, há quem prefira falar dos queixos esquisitos e das mulheres feias (se a Lois Lane dele era feia, eu sou o Shrek...). Pessoalmente, deslumbra-me mais tudo o resto, como aliás Quitely faz questão de me lembrar ao longo de toda esta edição: a claridade, a limpeza, a coreografia perfeita de cada vinheta (os combates deste número são, muito provavelmente, a melhor cena do estilo que já li na vida); a fluidez e naturalidade das expressões corporal e facial de cada personagem; e não há melhor acid-test ao verdadeiro talento de um artista, que a, aparente, facilidade com que desenha, bem, a figura humana. Diria, aliás, que é essa aparente simplicidade da arte de Quitely que o torna tão alienígena aos olhos de muitos leitores mais habituados (demasiado, diria) ao excesso de linhas e à sobrecarga da utilização do espaço de cada página.

Digo, repito, e volto a insistir: desenhar bem não é ter um traço bonitinho ou perfeitinho (por importante que isso seja); desenhar bem é dominar as vertentes tecnicas e aplicá-las de forma estilizada e personalizada, mesclando a contento o estilo do próprio artista com o enquadramento narrativo das personagens e situações que desenha. Veja-se o Clark Kent, tosco e curvado, de All Star Superman, veja-se o Batman (Dick Grayson), atlético e acrobático, em Batman and Robin; cada um tem uma linguagem corporal própria, uma forma totalmente distinta de ser desenhado por Frank Quitely. E depois vêm dizer que "as caras dele são todas iguais"? É que só me apetece dizer...

"The hour of the Pig has come!". Boas leituras ;)

MUCHA - Primeiro Teaser

David Soares. Osvaldo Medina. Mário Freitas. Outubro de 2009.