Espírito Crítico - Blog da KINGPIN BOOKS

sexta-feira, novembro 27, 2009

Masterclass de Mangá na Kingpin Books

MASTERCLASS INTEGRADO DE MANGA

Data: 5 de Dezembro, Sábado, das 10 às 17h (intervalo para almoço entre as 13 e as 14h)
Formadores: Gisela Martins (desenhadora e colorista) e Mário Freitas (argumentista e editor)
Duração: 6 horas
Preço: 40EUR
Vagas: 7
Inscrições: enviar mail para kingpinbooks@gmail.com

Pretende-se neste Masterclass levar os alunos a experimentarem as fases principais na criação de uma história no estilo mangá e das personagens que nela participam. O programa da masterclass abrange o seguinte:

- Introdução às origens do manga contemporâneo
- Diferenças estilísticas e narrativas entre o mangá e a BD de outras proveniências geográficas.
- Da génese da ideia à narrativa em mangá.
- Criação de personagens: os estilo “shounen” e shoujo”
- Anatomia da figura humana: caracterização física de uma personagem de modo a torná-la reconhecível através da sua pose, roupa, expressões facial e corporal.
- Definição das motivações e background das personagens.
- Exercício prático com criação e desenho de personagens.
- Interacção entre personagens e cenários: princípios básicos de lay-out e composição de página.
- O esboço, o desenho a lápis e a arte-final a tinta (inking): conselhos e técnicas mais comuns, com recurso a pincel e canetas técnicas.
- Estruturação de uma história e ritmo narrativo: os tempos e pausas narrativas, o motor narrativo, a tensão e o conflito.
- Exercício prático com diálogos.
- Balonagem e legendagem e a sua integração numa página desenhada.
- Tons cinza: as tramas (ou screen tones) e a sua função na legibilidade e aspecto final de uma página.
- Considerações finais e troca de impressões.

Biografia dos formadores:

Gisela Martins (http://shoottokill.wordpress.com/)

Nascida em 1979, em Proença-a-Nova, começou as suas andanças pelo mundo da banda desenhada participando em concursos de B.D. e exposições. Só mais tarde ingressaria no AR.CO. onde estudou Desenho e Ilustração. Desde sempre adepta de anime e manga, iria criar em parceria com Marco Felgueiras o Web comic “Magical Boys”. Ainda não satisfeita com a sua carreira académica, viria a estudar animação 2D/3D na ETIC durante dois anos.

Durante o seu percurso artístico participou em edições estrangeiras com Denise Akemi e Giovanna Guimarães bem como ajudou com a criação do evento ANIPOP onde mais tarde apresentou em conjunto com Sara Ferreira o grupo Shoot To Kill e lançou três revistas “A Go Go”. Nos últimos anos tem sido presença em vários festivais de banda desenhada dando conferências e workshops/demonstrações de manga, bem como colaborado com a Embaixada do Japão na Feira Internacional do Turismo de Lisboa. Presentemente trabalha como artista 2D/Concept Artist na Biodroid Productions e colabora com editoras como a NCreatures e Kingpin.
Trabalhos mais conhecidos como autora: “Magical Boys”, “A Go Go” 1,2 e 3, “Ad Lucem” para a colectânea Venham +5
Trabalhos mais conhecidos como colorista: Super Pig e CAOS da editora Kingpin

Mário Freitas

Nasceu em Lisboa em 1972 e é licenciado em Gestão pelo ISEG. Foi consultor de investimentos e criou a então Kingpin of Comics em 1999, na altura a primeira loja online de BD a surgir em Portugal. Abriu a primeira loja física em 2002 e a segunda (em frente à outra, uma espécie de ampliação) em 2004, dedicando-a exclusivamente ao Mangá e ao Anime. Em 2008, adoptou o nome Kingpin Books e mudou-se para uma livraria de maiores dimensões, que inclui galeria de originais e sala de formação.

Participa desde 1999 no Festival de BD da Amadora, tendo convidado ao longo dos anos autores como Seth Fisher, Cameron Stewart, Ed Brubaker, Sean Philips, Tara McPherson e, mais recentemente, Karl Kerschl, Ramón Pérez e CB Cebulski. Inicou as lides editoriais em 2006, publicando até ao momento quatro Super Pig, três CAOS, um volume da Fórmula da Felicidade, o álbum Mucha e a tradução de TX Comics, feita pelo próprio. As edições publicadas obtiveram já um total de 2 prémios e 10 nomeações em prémios de BD a nível nacional. Acumula as funções de editor com diferentes funções criativas, incluindo a de argumentista, arte-finalista, legendador, designer e paginador. Lecciona um workshop integrado de BD onde procura novos talentos da banda desenhada portuguesa.

sexta-feira, novembro 13, 2009

Amadora 2009 – Eu contribuí. E vocês?

Terminou o Amadora BD deste ano. Com todas as condicionantes e cortes orçamentais anunciados, e perante o espectro (eterno, diria) da crise, acabou por ser uma agradável surpresa. Foi um evento participado, animado, com um feeling refrescante e um salutar ambiente de renovação com muitos autores novos e muita gente nova. Muito se tem já dito e escrito sobre o evento, desde análises sérias e ponderadas, aos habituais muros de lamentações de quem muito exige e pouco faz.

Justiça reposta
O festival tem defeitos? É óbvio que tem, caso contrário não se gastariam centenas de linhas a falar deles, em blogues e afins. Mas é, inequivocamente, o único festival de verdadeira dimensão nacional e internacional, o único que atrai verdadeiro público, o único que justifica investimentos editoriais, o único que justifica o investimento do (muito) tempo gasto na sua preparação e participação. Depois, o festival é vítima de duas das piores características do povo português, se quisermos acreditar em tais atavismos: o nacional-porreirismo e a, aparentemente oposta, maledicência militante. Se por um lado se adoram os elogios vácuos, as palmadinhas nas costas, os incentivos hipócritas e o culto da mediocridade, por outro cultiva-se o negativismo fácil, mal informado e bastas vezes infundado. Mas experimentem ler as opiniões dos autores estrangeiros que nos visitam; experimentem ver as fotos de outros eventos análogos que se realizam no estrangeiro. Chegarão facilmente à conclusão que poucos serão os eventos do género que cheguem, sequer, aos calcanhares do Amadora BD, nomeadamente no cuidado cénico do espaço, na cenografia das exposições, nas honrarias com que recebe os seus autores convidados, nomeadamente os que vêm de fora. É fácil dizer-se mal do festival quando as únicas realidades que se conhecem, ou se julga conhecerem, são as de Angoulême ou das mega-convenções americanas. E mesmo estas últimas não passam de espaços glorificados de vendas e encontro de fãs, negando por completo a celebração da BD enquanto forma de arte, através das exposições de originais comuns nos melhores certames europeus.

A localização
Quanto ao espaço, o mais relevante é não continuarem a suspirar pela Fábrica da Cultura porque isso foi chão que deu uvas cujo mosto secou há 9 anos. A fábrica apodreceu, a câmara não a reabilita, ponto final. Escusamos de passar a vida com o eterno saudosimo português do “antes é que era”. Já vamos em 4 anos consecutivos de Fórum Luís de Camões e o espaço é perfeitamente adequado às necessidades e dimensões do festival. O estacionamento é escasso? E por acaso na Fábrica da Cultura era melhor? A grande mais-valia da fábrica era o impressionante pé-direito que permitia erigir uma espécie de 2º piso em estruturas de andaimes. Só que consta que essas mesmas estruturas comiam boa parte do orçamento, em tempo de vacas gordas, pelo que é fácil de prever que seriam proibitivas no presente.

A renovação
Depois, fala-se constantemente da necessidade de renovação do festival, como se isso fosse algo que tivesse de ser feito apenas de x em x anos. Não! A renovação do festival, quer da organização quer dos restantes agentes intervenientes, tem de ser anual, tem de ser permanente. A velocidade de mutação dos gostos (pelos menos dos visitantes mais jovens e escuso de explicar porque é que o futuro de qualquer evento passa por eles), a constante renovação gráfica e aparecimento de novos autores não se compadece com mini-revoluções periódicas, como se de um simples botão de shift de tratasse. Essa evolução tem de ser contínua, feita a cada ano, muitas vezes, se calhar, de forma até quase imperceptível para os menos atentos. Deus (ou será o diabo?) está nos pormenores, e passa muito por aí os incrementos de qualidade que urge fazer; mas que urge fazer sempre, todos os anos, e não apenas a cada 5 ou 10 anos.

A principal crítica
Ponto assente, e principal crítica que faço à organização: é raro o ano em que não se melhore alguma coisa, mas que, fatalmente, não se piore significativamente outra. Exemplos maiores: a área comercial e a zona de autógrafos. No ano passado, tivemos uma das melhores áreas comerciais de sempre, em espaço aberto, ao redor de uma praça central desafogada; em contrapartida, os autores foram enfiados numa pseudo-nave espacial feita à medida de anõezinhos de jardim (se eu me sentia enclausurado, não quero imaginar o pobre João Mascarenhas, que tem mais 27cm que eu…). Chegamos ao corrente ano de 2009 e voltamos a um modelo adequado para a zona de autógrafos, mas eis que a área comercial regride de forma absurda e inexplicável, fazendo lembrar o ano negro de 2005. Voltam as traves inúteis e bloqueadores da visão, volta o calor, volta a pintura a negro do interior dos stands, volta com isso a falta de luz. A melhor arquitectura, o melhor design, são sempre aqueles que melhor servem a funcionalidade, sem descurar, obviamente, o sentido estético da coisa. Colocar traves estilo pilar em frente aos stands ou pintar o interior destes de preto, impedido qualquer propagação eficiente da luz, revela total ignorância funcional ou comercial, total falta de senso comum, em suma, falta de competência profissional naquilo que deve ser o trabalho de um arquitecto ou designer. Em resumo, é estúpido! E eu adoro preto, atenção; mas há uma diferença abismal entre apontamentos a preto e paredes varridas a preto.

O balanço comercial
Quer com isto dizer que as vendas foram más, uma catástrofe? Não, bem pelo contrário. Pela parte que me toca, 2009 foi o melhor ano de sempre do ponto de vista comercial. Assumo sem rodeios que não previa isto ao chegar na primeira 6ª feira, dia da inauguração, e deparar-me com a área comercial e, em particular, com o espaço que me estava destinado. Aliás, quem estava ali por perto (e talvez até outros não tão perto assim) ter-me-á ouvido decerto berrar alto e bom som e proferir uma série de impropérios com direito a bolinha vermelha. Mas baixei os braços? Resignei-me a um destino negro e irreversível, leia-se a fracas vendas? Não. Olhei para aquela “coisa” e procurei a melhor forma de potenciar o espaço e de minorar as perdas, que acabaram por nem ocorrer, bem pelo contrário. Teria sido mais fácil ir para a net queixar-me da organização e do mundo, e decretar o princípio do fim do festival, ou encolher os ombros e continuar sossegadinho atrás do meu balcão, à espera que qualquer Godot se dignasse a aparecer. Critiquem o que tiverem de criticar, reclamem com quem de direito, mas façam-no com autoridade moral para tal. Não olhem só para o umbigo dos outros; experimentem espreitar o vosso e talvez percebam que, afinal, há coisas que se começam a construir “em casa” e que não cabe à organização de um festival fazer por vós.

Os convites a autores estrangeiros
E quanto aos autores estrangeiros ou à pouca abundância deles? É certo que, idealmente, caberia à organização convidá-los antecipadamente ou pedir sugestões de nomes a editores e livreiros. Mas já que não o faz, por inércia ou por desconhecimento, porque não tomam certos editores e livreiros eles próprios a iniciativa, ao invés de estarem à espera de serem sempre os mesmos dois (ou três, na melhor das hipóteses) a fazê-lo? Se cada editor/livreiro convidasse ou sugerisse anualmente à organização 3 ou 4 nomes, imaginem a qualidade do cartaz que teríamos para o evento. E um melhor cartaz traria inevitavelmente mais visitantes, mais notoriedade e, logo, mais vendas. Com a disseminação de blogues, sites, redes sociais e quejandos, é fácil e rápido entrar em contacto com parte significativa dos autores profissionais que trabalham nos mercados internacionais. Tomem a iniciativa. Não se limitem a criticar, não se limitem a esperarem sentados.

As outras iniciativas
E quem fala em convites a autores, fala naturalmente noutra iniciativas. A organização disponibiliza um auditório, um palco, uma área de workshops, uma área infantil. Usem-nos! Puxem pela imaginação e tornem o festival num local cada vez mais interactivo, cada vez mais interessante para novos visitantes, em vez de se passar o resto da vida a agradar aos convertidos do costume.

Os Prémios Nacionais de BD
Outro ponto a criticar no festival é o modelo de atribuição dos Prémios Nacionais de Banda Desenhada, em particular devido ao modelo anacrónico e desajustado da votação. Já que as nomeações são feita por um júri seleccionado e que tem acesso em pé de igualdade a todos os livros a concurso, porque não adoptar um modelo semelhante, mais alargado, para a atribuição final dos vencedores? Uma espécie de Grande Júri, composto por 15 ou 20 pessoas, que tivesse acesso atempado aos livros nomeados e pudesse assim decidir em consciência, em função da qualidade real das obras, e não apenas com base na notoriedade dos nomes envolvidos. O sistema actual por votação postal, aliado à parca distribuição de parte sinificativa dos livros nomeados, é extremamente dissuasor do acto de votação, olhado com desinteresse e quase como um fardo para quem recebe em casa a cartinha da praxe com a lista dos nomeados.

Casos perdidos
A descentralização do festival é uma aposta política que parece imutável. Não funciona, mas quanto a isso muito, e bem, já foi dito, pelo que não vale a pena bater mais nesse ceguinho. Outros ceguinhos há, porém, que não se livram da sova (e perdoem-me o mau gosto do trocadilho) como o eterno, indesculpável e inqualificável atraso no catálogo e no programa do festival. Que ocorra num ano, desculpa-se; que ocorra sistematicamente, é puro desleixo. Tal como insistir em sessões de autógrafos marcadas para as 15h, quando o festival ainda está às moscas e, sobretudo, quando os autores estrangeiros ainda estão envolvidos em almoços oferecidos… pela organização. Lá está, detalhes; e estes seriam tão simples de resolver. Em prol do festival, em prol dos autores, em prol dos visitantes. Que venha o próximo. Que seja ainda melhor. Eu vou fazer por isso. E vocês?